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18/07/2014

BATALHA (alegoria de um amor antigo)


Diante de ti eu me rendo
e me inclino subserviente.
Deponho armas e bandeiras.
A teus pés os meus despojos deposito.
Permita somente que eu recolha
o que sobrou de minha honra.


No campo ensanguentados ao fim do dia
Mandei soar as trompas de pesar.
Aos sinos ordenei dobrarem
consoantes com a minha dor

aos quatro ventos.
De mãos atadas sigo o teu triunfo.
Poupa-me da humilhação.
Lutei a boa luta e no fragor da batalha
suei sangue e lágrimas.

Em vão busquei a morte,

o golpe derradeiro e fatal.
Sou teu prisioneiro
e não temo o castigo.
Exponha minhas vísceras
e nervos. Ata-me à roda.
Sufoca-me o garrote.
Que eu monte o cavalete.
Eviscera-me e exponha o meu vazio.
Minh'alma, se existe, 

perdida está e por aí vaga 
a procura de guarida
em alguma longínqua ermida
do teu impiedoso coração.

Como pode ser imensa a tua indiferença?
Como não antevi tanta desgraça?
Eu me pergunto, pasmo e louco,
porque esta saudade, se tão pouco

tu me destes para relembrar?

Então que assim seja. Aceito a derrota
e o teu desprezo inclemente,
as masmorras e o esquecimento.
Que se apague o meu nome.
Espalhem minhas cinzas pelo campo.

o menor rastro de mim
será varrido pelo vento.
Não há de haver o menor vestígio
de minha passagem por tua vida.
Nada mais resta para comprovar
que atravessei o teu caminho.

Minha lembrança há de ser lenda
esquecida pela plebe e pelos
menestréis; sem canto,
ode, saga ou saudade.

Permita Deus que a minha história
por insolente teimosia persista.
E que o último trovador
cante a minha triste história
em prosa ou verso.

Se alguma alma apiedar-se
não será vã a minha triste sina.
De resto, é sempre mesmo assim:
todo amor que apraz imolar-se
só se vê doente e louco
quando já é tarde para se salvar
um resquício de consciência,
um átimo de decência
e uma derradeira luz no olhar.


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