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07/03/2015

Sempre entendi o Brasil como pátria amada. Pátria é uma palavra feminina. Logo, o Brasil é mãe e Brasília é um nome que lhe cai bem.
Vou fazer de conta que Dona Brasília é minha vizinha de parede-e-meia e, assim sendo, cá de casa sei tudo que se passa do lado de lá.
Belo Horizonte, 7 de março de 2015.
Querida Brasilia.
Nós nos conhecemos a bastante tempo. Sempre admirei a sua pessoa, afinal tenho acompanhado todo o seu esforço para criar a sua criançada. Cá entre nós, a turminha não é fácil e se você não fosse a mãe que é, esses meninos, sei não...
De uns tempos para cá, Renan, Sarneyzinho, Genoino, Zé Dirceu, Luiz Inácio, Gleise, Dilma e outras das suas crianças estão pintando o sete.
O que foi que aconteceu? Não compreendo como você, uma mãe tão gentil, possa estar passando pelo dissabor de ver a criançada lhe causar tanta tristeza e preocupação.
Você sempre deu a seus filhos tudo de bom e do melhor. Sua mesa sempre foi farta. Sua casa é muito aconchegante. Tenho até uma certa inveja de você. Seu quintal e seu pomar tem tudo quanto é tipo de fruta. Sua horta tem uma terra maravilhosa e confirma a intuição do Senhor Caminha - aquele português fofoqueiro que voltou a séculos para Lisboa. Sua propriedade tem matas exuberantes. Elas purificam o ar de sua casa e fazem sombra, refrescando para além do quarteirão e da cidade.
O que mais uma mãe pode dar a seus filhos e que você não tenha dado de mão-beijada?
Parece que de nada adiantou você se esmerar em cuidado com as suas crianças. Agora é preciso agir com rigor. Se elas não aprenderam por bem, agora vão aprender com as calças arriadas. Nada que umas boas chineladas não concerte.
Ponha seu coração de lado e baixe o sarrafo. Melhor que elas aprendam em casa do que na rua, como dizia seu pai português.
Esta última que as crianças aprontaram passou de todos os limites. Onde já se viu sair por aí se envolveram com gente perigosa. E tudo isto por um montão de pirulitos, jujuba, pipoca, algodão doce e outras guloseimas. Pior é que elas estão negando. Dizem que não conhecem e que nunca viram esta corja que alicia menores. Juram e negam com a cara mais limpa do mundo.
Se me permite o conselho, tenha pulso e aja. Pé de galinha não mata pinto. E se aquela sua vizinha psicóloga vier com aquela conversa de que sova traumatiza, diga pra ela que você prefere correr o risco a ver um filho na cadeia.
Para sua informação, perdi a conta das surras de cinta que levei. Mereci todas elas e vou muito bem da cabeça. Nunca precisei de acompanhamento psicológico. Apanhar sem motivo é que pira. Desde cedo aprendi que os meus atos determinam méritos ou punições. É a velha lei de causa e efeito, não é mesmo? Agiu nos conformes, muito bem, meu garoto. Mijou fora do penico, tome moleque...
Paro por aqui, vizinha. Não me leve a mal se dei os meus pitacos. Tenho e sempre tive grande estima por você. Prefiro correr o risco de perder a sua amizade a me calar vendo as suas crianças pintando e bordando por aí.
Beijão e mais uma vez me perdoe a ousadia.

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