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08/03/2015

Hoje é dia das mulheres e nesta condição  eu as vejo acima de tudo como mães. A mulher é a mãe da humanidade.
Enquanto eu escrevo este texto, elas estão parindo e as lágrimas de dor são confundem a alegria. O medo é superado pelo choro da vida que recebem sob o peito nu. Após o choque das luzes e do frio, o bebê de conforta no quentinho. E se acalma.
O tempo passa e eles deixam o peito. Crescem e na mesma proporção os zelos e cuidados com a sua saúde, felicidade e segurança.
Mais um pouco e eles vão para a escola. Na porta da escolinha a preocupação do pai é quase nada comparado ao sofrimento da mãe. Pela primeira vez ela não vai estar por perto parar assoprar o joelho ralado. Para acolher nos braços o medo do acordar de madrugada. Aquele olhar de desemparo dói no fundo de suas almas.
Vida que segue e de repente eles acham que estão prontos para o mundo. A mãe sabe que não e perambula pela casa até o portão ranger. Se for apartamento, o quase imperceptível barulho da porta do elevador soa alto e claro. Agora ela pode dormir em paz, não sem antes, comovida, se persignar agradecendo a Deus.
O tempo não para.
Eles namoram, casam. Agora são visitas de fim de semana. Cada dia que passa é uma eternidade. A compensação são os netos. Elas voltam no tempo e os seus olhos recuperam o brilho da juventude. A emoção é a mesma. Elas são mães novamente. A diferença é que agora dormem mais cedo e as preocupações são menores. Bem menores.
A vida se põe como do sol. E o ocaso das mães é doloroso. Com certeza seus últimos pensamento são de agonia e aflição. Por mais que seus filhos estejam bem situados na vida, elas pensam nas maldades que o destino pode aprontar. Pelo sim pelo não, dedicam as suas derradeiras orações para os filhos, como se elas não estivessem na iminência de cruzar a última fronteira e muito mais necessitadas de oração. Sublimam o seu medo e mais uma vez renunciam a si mesmas.
Fico imaginando a agonia das mães em países em guerra. Recordei-me de minha mãe e de seus relatos da segunda guerra. Uma grande amiga sua tinha um filho na Força Expedicionária Brasileira (FEB). Todos os dias, por volta das 8 da noite, sua amiga sintonizava o rádio e aguardava a leitura da relação de mortos e feridos em combate. Mãe algumas vezes aparecia na casa desta amiga a pretexto de uma visitinha, sempre um pouco antes da terrível relação de mortos e feridos. Procurava distraí-la com amenidades, de modo que ela esquecesse do rádio até a hora da agonia. Se o pior acontecesse, queria estar por perto para abraçá-la em silêncio, porque não há o que dizer a uma mãe que perde um filho. Mãe comentava que não havia como descrever a fisionomia de sua amiga ouvindo a transmissão. A lista de mortos percorria as patentes de cima para baixo: Capitão Antonio Carlos Nogueira, 2○ Tenente José Pedro da Silva, 2○ Sargento João Arantes, desaparecido, e assim por diante até chegar na patente de seu filho que era Cabo. Um ou dois haviam sido mortos em combate. Nenhum deles o seu filho e ela desabava lívida com o terço entrelaçado entre os dedos. Balbuciava orações e estendia as mãos para minha mãe como um náufrago procura por aquelas que se oferecem para salvá-lo.
Esta agonia é vivida por milhares de mães mundo afora. As guerras não lhes dão trégua e elas morrem todos os dias diante de rádios e televisões.
Hoje é dia da mulher. É dia das mães e neste condição elas são como Nossa Senhora, cada uma a seu modo, sempre diante da possibilidade do descendimento da dor ou da ascensão da alegria. Seus filhos resumem toda a ventura deste mundo. Por seus filhos caem prostradas, desfeitas, até que possam resgatá-los de seus sofrimentos ou reencontrá-los onde ambos não morrem mais.

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