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11/03/2015

Abril tá chegando. Bem no comecinho tem a Semana Santa e me dou conta de que não participo a anos. Será que Deus está chateado comigo? Ele sabe que existe uma razão para isso e há de me dar desconto.
Anos atrás, até tentei seguir uma procissão do encontro, aqui em Belo Horizonte. Sai no meio...Gente conversando alto, piadas - uma total falta de respeito. Me desiludi.
Do mesmo jeito, raramente como frutas. Ué!...o que tem uma coisa a ver com a outra, você há de perguntar. Explico. Passei boa parte de minha infância na roça, na cidadezinha de meus pais e avós: Oliveira Fortes, que é deste tamaninho. Hoje tem pouco mais de 2 mil habitantes e é uma das menores cidades de Minas.
Mas ela não é tão insignificante assim, não. Saiba você que o velho Bias Fortes(não me lembro de seu nome completo) nasceu lá. Foi conterrâneo, contemporâneo e amigo de meu avô, o vetusto Coronel Francisco Ferreira de Carvalho. Pois então, Bias Fortes foi o primeiro Presidente do Estado de Minas Gerais - fique sabendo você. Foi o velho Bias quem fundou Belo Horizonte, lá nos idos de 1897. Do dia pra noite, o Curral del Rei virou capital e a cidade se desenvolveu a partir da Praça da Liberdade.
Não estranhe estar escrito Presidente do Estado de Minas Gerais. No início da república velha, os chefões eram chamados Presidente do Estado. Depois viraram governadores.
Voltando à vaca fria, falava das frutas...Antonce...comia fruta no pé: laranja campista, banana, fruto do conde, jabuticaba, manga, goiaba, ameixa e outras. Todas doces. Absurdamente doces. Naturais, sem agrotóxicos. Adorava todas, mas a laranja campista era a rainha das frutas. Canivete na mão, sentado debaixo do pé, comia até a barriga estufar.
Comento com os amigos que se eu tivesse um pé de campista, vendia a dúzia pelo preço que eu quisesse. Ainda que eu viva outra vida, nunca mais vou chupar, comer, devorar laranja igual.
Não consigo mais gostar de frutas. Às vezes tento, mas não dá. São lindas, enormes e sem gosto. Tudo enxertada, desenxabida, sem graça.
Fruta de japonês. Uma droga.
A conversa tá encompridando. De volta à semana Santa.
Em Oliveira Fortes a Semana Santa dependia muito do Padre de plantão. Dei sorte, porque na minha infância o Padre era o Padre Alvim: bom de festa.
Um mês antes começavam os preparativos. Todos comuns às semanas santas. Mas com o padre Alvim tinha uma diferença, um detalhe que encantava. Milhares de gomos de bambu verde eram amontoados para a confecção de lanternas. Os gomos mediam mais ou menos 30 centímetros. Eram feitos 4 ou 5 cortes de cima abaixo. Os cortes desciam até até faltar uns 10 centímetros para a outra extremidade. O bambu então poderia ser aberto. Feche a sua mão de modo que todos as pontas dos dedos se toquem e depois abra a mão fazendo uma letra "U". O gome de bambu ficava desse jeito e permanecia uma letra U porque um arame grosso fazia um arco, por dentro, mantendo as pontas separadas. A base do gomo era a empunhadura da lanterna.
Feita a lanterna era só colar, por dentro, as folhas de papel celofane verde, amarelo, branco, azul, vermelho e rosa. No meio, no miolo, uma vela.
Lá por volta das 8 da noite, começava a procissão do enterro. O Cortejo saia da Igreja e descia pela praça da matriz. Passava pelo centro da cidade até aparecer do outro lado, subindo a rua principal. O percurso não ultrapassava 500 metros.
Na frente, a afinadíssima banda do João Dulce.
Depois uma visão celestial: aquele serpente de luz multicolorida serpenteando pela concavidade topográfica de Oliveira Fortes.
Silêncio absoluto às vezes interrompido pelas exortações de Padre Alvim. Arrastar de passos. Salvo engano meu, recitava-se ladainhas. As matracas marcavam o ritmo da dor e do luto. Padre Alvim puxava a primeira parte do Pai Nosso e da Ave Maria. O povo completava as orações de cabeça baixa.
Oliveira Fortes parecia subir uma escadaria de luz para o céu.
No meio do povo, pai e mãe seguiam na frente. Lado a lado, eu e minhas irmãs de mãos dadas. Mãe e as meninas de véu.
Lá se vão quase 60 anos. No caminho, fui perdendo a fé e a luz. Pensando bem, não perdi a fé não. A vida é que foi perdendo a cor, o colorido. Hoje trago na mão uma lanterna de bambu de uma cor só. As outras foram se apagando. Fiquei mal acostumado com poesia, fé rural, frutas no pé e simplicidade.
Acho que é por isso que não frequento mais a Semana Santa. Frequento a vida todo dia tentando reacender as minhas lanternas coloridas.

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