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20/04/2016

HISTORINHA DE ALMANAQUE
Zeferino herdou o Armazém Brasil com as contas em dia, o estoque renovado, clientela pontual e fiel.
Zeferino era muito simpático e por isso ganhou a simpatia dos clientes que intercederam para que ele comandasse o armazém. O momento era muito bom para o comércio. A demanda bombava. As mercadorias estavam com o preço elevado, mas a clientela não se importava. A economia ia bem e o dinheiro circulava a rodo.
Apesar de tudo correr bem, os fregueses começaram a se aborrecer com algumas atitudes de Zeferino. Corria o boato de grandes desfalques no armazém. Como ele era o gerente-geral do estabelecimento, as suspeitas naturalmente recaíram sobre ele.
Zeferino se defendia alegando que não sabia de nada. As suspeitas então sobraram para o seu braço direito, José Abreu, seu braço direito na administração da casa comercial.
Deu merda e as falcatruas foram descobertas. Chamaram um auditor muito competente, um tal de Joaquim Negão, cuja alcunha não condizia com a seriedade da sua função.
Joaquim escrafunchou a contabilidade do armazém e chegou à conclusão que a roubalheira comia solta. Deu processo na justiça e José Abreu se deu mal. Puxou cadeia mas não abriu o bico sobre outros possíveis envolvidos nos desfalques.
Com todo este imbroglio, a clientela do armazém rezava para que Zeferino largasses o osso. Afinal de contas, a cidade dependia do estabelecimento para suprir as suas necessidades. O Armazém Brasil tinha de tudo e as alternativas ficam muito distantes da cidade. Sem falar que os preços eram muito mais caros.
O problema era que Zeferino não queria deixar o comando do armazém. Ele era importante na comunidade, tinha prestígio e não queria perder o status alcançado. Dureza era que não dava pra continuar após tantos escândalos envolvendo a sua administração.
O que fazer?...
Zeferino tinha pouco estudo, mas o que lhe faltava em luzes sobrava em esperteza. E não é que o danado deu um jeito de continuar dando as ordens! Como assim?
O armazém tinha vários balconistas. Muitos eram competentes e dedicados. O senão é que a maioria era metida a andar com as próprias pernas. Na eventualidade de assumirem o comando da casa, não aceitariam interferências e muito menos virarem fantoches de Zeferino.
Entre estes balconistas tinha uma moça que só dizia amém para Zeferino. Era uma autêntica vaca de presépio, sem falar ainda que tinha verdadeira veneração pelo comandante. Sua graça, Zilma.
Zilma tentou de tudo na vida e até foi dona de uma lojinha 1,99. Um belo dia, Zilma conseguiu trabalhar no Armazém Brasil. Como era subserviente, foi subindo, subindo... Um dia assumiu a chefia do estoque.
Zeferino esfregou as mãos. Me dei bem. Zilma é a solução. Meus pobrema se acabaram-se, pensou Zeferino lá com os seus botões. Feliz da vida, tomou quase uma garrafa de marafu e foi comemorar na casa da amante.
- Rosa, minha filha, encontrei um jeito de continuar por cima. Sabe a Zilma - aquela puxa-saco baba-ovo? Pois então, querida...Vou botar ela no comando do armazém. Seu Zeferininho aqui vai continuar sendo o rei da cocada preta. Tô até pensanu na gente darmos um rolé em miami pra gente comemorarmos. Miami agora...he he...que eu pulo da cama e vou direto pra rodoviária para comprar as passage.
Dito e feito, Zilma assumiu o comando do Armazém Brasil. E aí?
Aí que deu merda. Zilma era anta destrambelhada. O armazém tá à beira da falência. Zeferino tá puto da vida e pode até ser preso por causa das cagadas da Zilma.
A população está com problemas de abastecimento. Pior, a economia da cidade gravitava em torno do armazém e a crise está gerando efeito dominó. Todo dia um montão de empregos vai pro brejo. A grana anda sumida e se sumida está, o poder aquisitivo da cidade está descendo a ladeira. Desemprego, inflação de preços. Tá tudo uma josta.
Mas como desgraça pouca é bobagem e o que está ruim sempre pode piorar, para mal dos pecados a iminência de bancarrota do estabelecimento foi parar na barra dos tribunais. A população quer porque quer a cabeça de Zilma e, de quebra, quer também a de Zeferino na bandeja. Afinal de contas foi ele que fincou o poste no Armazém Brasil.
O processo caiu na mesa de um juiz linha dura, mora? Um monte de balconista tá vendo o sol nascer quadrado e muitos outros estão na boca do camburão. Mais um tiquinho de provas e todos serão recolhidos aos costumes.
Zilma tá na marca do pênalti. As casas de aposta estão pagando 10.000 por 1 caso ela se salve do pé na bunda.
A coisa tá feia e o teu nome tá no meio. Pelo sim pelo não, mesmo eu que não tenho nada com isto vou fazer a minha malinha e me mandar pra Argentina. Dizem que o armazém de lá tá bombando. Vai que arrumo um emprego, némês?
Hasta la vista, baby.
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Fernando Antônio de Carvalho
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