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21/06/2014

IRONIA
Hoje a noite está absurdamente estrelada !
O silêncio é uma moldura negra.
A beleza entontece e apequena
a minha solidão sem sono.
Fico imaginando tanto espaço
e a grandeza do universo imenso.
E me curvo. E me desprezo.
Fico contemplando o cosmo
daqui debaixo de um nada.
Anos-luz em todas as direções.
Galáxias, aglomerados, universos.
Energias estonteantes, cataclísmicas.
Apocalipses. Infernos de luz e fogo.
Energias inimagináveis.
Civilizações agonizantes, condenadas
ao martírio por capricho e descaso
de deuses caprichosos.
Acontecendo agora
diante do pavor de mães
galáticas e prantos de cristal.
Tudo tão estupidamente imenso!
Uma grandeza que humilha
e entristece. Pobres mortais!
Mundos tão pequenos
esmagados qual inseto
que pisamos sem remorsos.
Por que tanta diferença e o
porquê de tanta indiferença?
Por que o entendimento de
minha insignificância?
Há de ser uma maldade suprema
a rir-se do meu assombro.
Talvez um requinte divino
de torpeza incomensurável.
Desprezível ruindade de um olimpo
impiedoso, fútil e breve.
Não há de ser nada...
Eu sobrevivo em um retrato na parede.
A saudade de mim mora em um sorriso.
A minha poesia vai ser lida,
descoberta em um baú apodrecido.
Versos pobres não vencidos
pelo tempo a escorrer em tuas mãos.
Não há de ser nada...
Eu ainda vivo em meu filho
e em meus netos por milênios.
E quando o pó de mim
retornar às estrelas,
a matéria-prima dos teus universos
vai me aglutinar de novo e de novo
em outros mundos e em outras vidas.
E nem mesmo tu tão poderoso
há de me reconhecer entre os teus filhos.
E a minha morte vai zombar
pelo infinito. Em silêncio.
Em uma noite como esta que
contemplo sem entender
o meu mistério. E o teu fracasso.

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