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07/04/2017

De minha amiga poetisa, tecido com mãos de fada.
Da série Meia Volta e Meia
A alma é mesmo extraordinária!
Ao seu modo impermanente
traz os ventos que já descansam no oeste,
ascende os tantos sóis adormecidos
e acorda o silêncio das vozes queridas.
Ouço minha māe reclamar:
— essa menina é cismada...
mal saiu do coeiro e que trabalhar no circo?!
Dona Nieta concorda imediatamente.
Eu, em vez de estar dormindo no tempo,
estou para sempre de pé
atrás da nossa geladeira,
onde ninguém me vê
e escuto tudo;
para sempre ressentida
porque minha mãe não sonhava junto comigo,
para sempre tentando me perdoar
por compreender que a gente
empacota mais sonho
um dentro do outro,
do que realiza;
até que não se acentuem mais que uma doçura tristonha,
nas madrugadas insones.
As translúcidas as mãos da alma
abrem as costuras do tempo
para muito aquém das minhas.
Estendem o frescor das horas,
abrigam
e livram os meus instantes de sua enfermidade,
bordando-os como relicários em meu corpo.
Eu, os desenho com palavras,
som , traço e cor
e tudo posso reviver,
mesmo que de
passiva quietude,
não importa.
Deixa- me fluir mais de mim
e mergulhar neste profundo tempo
como se tempo algum
me tivesse havido.
Marília Botti
Notas de Subsolo
8 de abril/2017

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